Moto já é 17 vezes mais perigosa do que carro
Acidentes de motocicletas com morte aumentaram 244% em 10 anos, segundo o Mapa da Violência 2012 feito pelo Instituto Sangari. Só na cidade de São Paulo, dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) revelam que pelo menos um usuário de moto morre a cada 24 horas.
Em 2011 foram 42 pessoas por mês e a tendência é de alta. O Mapa da Violência aponta que as mortes em motos já superaram a de outras categorias no trânsito e chegam a um terço do total. Segundo o sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, coordenador do estudo, as mortes de motociclistas aumentaram 20% mais do que o crescimento da frota.
Isso significa, diz ele, que o risco de morrer em moto é 17 vezes maior do que em automóvel. Ele alerta ainda para o fato de que, se nada for feito para reverter esse quadro dramático, as projeções indicam que, em 2016, mais da metade das mortes no trânsito serão de usuários de moto
Todo dia uma nova dor
Na manhã fria de 8 de maio, a dona de casa Élida Pugliezi Bessa
trabalhava nas obras sociais da Igreja Nossa Senhora da Esperança, em Moema, quando uma amiga chegou dizendo que o trânsito na Avenida
Brigadeiro Luís Antônio parou porque o corpo de um motociclista estava há horas estendido na pista. Élida sentiu um aperto
no coração. Na hora, lembrou-se do filho, George Luiz Pugliezi Bessa, de 36 anos, que fazia aquele trajeto para ir ao trabalho.
“Misericórdia, meu Deus, para a mãe desse rapaz”, afirmou, sem imaginar que pedia misericórdia para ela
mesma.
George, piloto cuidadoso, habilitado há 15 anos, nunca havia se envolvido em acidente de trânsito. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu porque não houve testeeeemunhas. A única informação da família é de que a moto, uma Kawasaki, colidiu com a quina de um ônibus que estaria parado. O motociclista caiu, bateu a cabeça e morreu na hora. A moto, comprada havia quatro meses, ia ser emplacada no dia seguinte.
A família só soube da morte de George por volta das 15h, quase seis horas depois, e mesmo assim por acaso. George era gerente de tecnologia da informação no Conselho Regional de Enfermagem e naquele dia não apareceu para uma reunião importante. Como não era costume faltar a compromissos, todos estranharam. Um amigo ligou para a casa do rapaz em busca de notícias, mas, ao perceber que lá todos achavam que ele estava no trabalho, não comentou nada. O pai, Luiz Henrique Bessa, intrigado com o telefonema, ligou para o celular do filho. Um policial atendeu e pediu para que alguém fosse à delegacia porque havia ocorrido um acidente.
“Cheguei em casa pouco depois. Ao saber do acidente, não sei por que me antecipei e perguntei se ele havia morrido. A minha filha respondeu ‘mamãe, não vou te esconder’. A dor que senti era tanta que perdi o chão”, recorda-se a mãe.
Élida, mãe de quatro filhos, conta que George, o caçula dos homens e o único solteiro, era muito ligado à família. “Pai e mãe eram pessoas sagradas para ele.” Segundo Élida, o filho não bebia, não fumava, não comia carne vermelha e todo fim de semana ia à igreja. No último, assistiu às missas de sábado e domingo. “No dia em que morreu, ele usava um crucifixo de ouro no peito, um anel também com crucifixo e outro com o pai-nosso”, diz.
Um dia antes do acidente a família se reuniu para jantar no Clube Pinheiros. “Não sei por que naquela noite me deu vontade de tomar uma sopa. Já eram 22h quando eu e meu marido saímos. No elevador encontramos o George e ele nos acompanhou. Sentamos em uma mesa nos fundos, bem aconchegantes e isolados. O meu marido pediu vinho e, excepcionalmente, meu filho não recusou. Eu também não pedi ao garçom para tirar a taça dele, como era o hábito. Brindamos por longo tempo, como nunca fizemos antes. Parecia até que era uma despedida”, conta a mãe.
No dia seguinte Élida acordou cedo e, novamente contrariando a rotina, foi à cozinha tomar água. O filho apareceu em seguida. “Ele não disse nada. Pegou um copo de leite e me deu um beijo, como se estivesse pronto para partir. Eu apenas falei ‘tome cuidado’, como sempre pedia. Nunca poderia imaginar que aquela seria a última vez que ia ver meu filho”, comenta a mãe, com os olhos marejados.
Segundo Élida, George, chamado carinhosamente de Jó, também trabalhava nas obras sociais da igreja e acompanhava a família na distribuição de sopa e agasalhos para moradores de rua. “Ele pegou pneumonia duas vezes porque tirou a roupa do corpo para agasalhar quem sentia frio. Numa delas ficou descalço e vestiu as suas meias e os tênis nos pés de um senhor”, conta.
No Natal de 2011, George se vestiu de duende na festa para crianças carentes, mas geralmente gostava de ser o papai-noel. A mãe conta que o filho não via maldade em nada e achava que até a mais vil das pessoas tinha algo de bom. “Na missa de sétimo dia a igreja estava lotada. O padre comentou que meu filho tinha deixado um grande legado e morrido em um momento feliz de sua vida. Apesar da ausência dele, são essas manifestações de carinho que me confortam”, diz.
Para a família, o fato de o corpo de George ter permanecido mais de três horas na rua é inaceitável. “Ele estava com o crachá pendurado no pescoço e todos os documentos. Será que ninguém se deu conta?”, indaga a advogada Heloísa Helena Pugliezi Bessa, que era a cúmplice e confidente do irmão.
Para Heloísa, a história do acidente está muito estranha e não fecha. “Se ele estivesse correndo, ia bater de frente. Mas bateu na quina, voou para o lado e a moto foi parar depois do ônibus”, diz. “Não pretendo que a Justiça, em meu nome, diga ao motorista que o derrubou que ele é o culpado porque, se a culpa foi dele, deixa ele conviver com ela. Mas a gente só quer saber o que aconteceu”, afirma.
Fonte: Portal do Trânsito - Publicado em 03/04/2012
